terça-feira, maio 03, 2011

pensamento complexo


Da necessidade de um pensamento complexo
Edgar Morin


* tradução de Juremir Machado da Silva

Política de civilização e problema mundial

Vou tentar descrever, de maneira breve, o problema do desafio da complexidade.
Começarei pela idéia de que toda e qualquer informação tem apenas um sentido
em relação a uma situação, a um contexto. Se, por exemplo; eu disser "amo-te",
esta palavra pode ser a expressão de um apaixonado sincero e deve ser tomada
nesse sentido; mas pode ser também a farsa de um sedutor e nessa altura será
uma mentira.

Pode ser ainda, numa peça de teatro, a palavra de um herói, e não do ator que
desempenha o papel do personagem; o sentido das palavras muda, portanto,
necessariamente, segundo o contexto em que as empregamos; é por isso que,
em lingüística, como todos sabemos, o sentido de um texto é esclarecido pelo
seu contexto. Por exemplo: quando ouvimos as informações na televisão ou as
lemos nos jornais, a palavra Sarajevo, a palavra Hezbollah e a palavra Kabul não
têm sentido se não as situarmos no seu contexto geográfico e histórico, o que
quer dizer que, para conhecer, não podemos isolar uma palavra, uma informação;
é necessário ligá-Ia a um contexto e mobilizar o nosso saber, a nossa cultura,
para chegar a um conhecimento apropriado e oportuno da mesma.

O problema do conhecimento é um desafio porque só podemos conhecer, como
dizia Pascal, as partes se conhecermos o todo em que se situam, e só podemos
conhecer o todo se conhecermos as partes que o compõem. Ora, hoje vivemos
uma época de mundialização, todos os nossos grandes problemas deixaram de
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ser particulares para se tomar mundiais: o da energia e, em especial, o da
bomba atômica, da disseminação nuclear, da ecologia, que é o da nossa
biosfera, o dosvírus, como a Aids, imediatamente se mundializam. Todos os
problemas se situam em um nível global e, por isso, devemos mobilizar a nossa
atitude não só para os contextualizar, mas ainda para os mundializar, para os
globalizar; devemos, em seguida, partir do global para o particular e do particular
para o global, que é o sentido da frase de Pascal: "Não posso conhecer o todo
se não conhecer particularmente as partes, e não posso conhecer as partes se
não conhecer o todo".

Deveríamos, portanto, ser animados por um princípio de pensamento que nos
permitisse ligar as coisas que nos parecem separadas umas em relação às outras.
Ora, o nosso sistema educativo privilegia a separação em vez de praticar a
ligação. A organização do conhecimento sob a forma de disciplinas seria útil se
estas não estivessem fechadas em si mesmas, compartimentadas umas em
relação às outras; assim, o conhecimento de um conjunto global,o homem, é um
conhecimento parcelado. Se quisermos conhecer o espírito humano, podemos
fazê-Io através das ciências humanas, como a psicologia, mas o outro aspecto do
espírito humano, o cérebro, órgão biológico, será estudado pela biologia.

Vivemos numa realidade multidimensional, simultaneamente econômica,
psicológica, mitológica, sociológica, mas estudamos estas dimensões
separadamente, e não umas em relação com as outras. O princípio de separação
torna-nos talvez mais lúcidos sobre uma pequena parte separada do seu contexto,
mas nos torna cegos ou míopes sobre a relação entre a parte e o seu contexto.
Além disso, o método experimental, que permite tirar um "corpo" do seu meio
natural e colocá-Ia num meio artificial, é útil, mas tem os seus limites, pois não
podemos estar separados do nosso meio ambiente; o conhecimento de nós
próprios não é possível, se nos isolarmos do meio em que vivemos. Não
seríamos seres humanos, indivíduos humanos, se não tivéssemos crescido num
ambiente cultural onde aprendemos a falar, e não seríamos seres humanos vivos
se não nos alimentássemos de elementos e alimentos provenientes do meio
natural.
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Por outro lado, durante muito tempo, a ciência ocidental foi reducionista (tentou
reduzir o conhecimento do conjunto ao conhecimento das partes que o
constituem, pensando que podíamos conhecer o todo se conhecêssemos as
partes); tal conhecimento ignora o fenômeno mais importante, que podemos
qualificar de sistêmico, da palavra sistema, conjunto organizado de partes di-
ferentes, produtor de qualidades que não existiriam-se as partes estivessem
isoladas umas as outras.É isto que podemos chamar “emergências", Por exemplo,
somos a vida. Um ser humano é constituído por moléculas, moléculas químicas,
moléculas de ácidos, ácidos nucléicos e aminoácidos. Nenhuma destas
macromoléculas tem, por si só. as qualidades que dão a vida; a organização viva,
feita destas moléculas, organização complexa, tem um certo número de
qualidades que emergem. qualidades de autoprodução. auto-reprodução,
autodesenvolvimento, comunicação, movimento etc.

Não podemos, portanto, compreender o ser humano apenas através dos
elementos que o constituem. Se observarmos uma sociedade, verificaremos que
nela há interações entre os indivíduos, mas essas interações formam um conjunto
e a sociedade, como tal, é possuidora de uma língua e de uma cultura que
transmite aos indivíduos; essas "emergências sociais" permitem o desen-
volvimento destes. É necessário um modo de conhecimento que permita
compreender como as organizações, os sistemas, produzem as qualidades
fundamentais do nosso mundo.

Tratemos agora do fenômeno da auto-organização. O ser humano é autônomo,
mas a sua autonomia depende do meio exterior. Se temos necessidade de nos
alimentar, é porque o nosso organismo trabalha continuamente, degrada a sua
energia e tem necessidade de renová-Ia, extraindo-a do mundo exterior sob a for-
ma já organizada dos alimentos vegetais ou animais. Por isso, para ser autônomo,
tenho de depender do meio exterior; para ser um espírito autônomo, tenho de
depender da cultura de que alimento os meus conhecimentos. a minha faculdade
de conhecimento e a minha faculdade de julgar. Assim, somos levados a pensar
conjuntamente em duas noções que até agora se encontravam separados,
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porque durante muito tempo não podíamos compreender a autonomia do ponto
de vista científico, visto que o conhecimento científico clássico só conhecia o
determinismo. A autonomia só podia ser pensada do ponto de vista puramente
metafísico, quer dizer, excluindo qualquer laço material. Por um lado, tínhamos
uma ciência com dependência, mas sem autonomia, e por outro lado uma
filosofia com autonomia, mas sem conceber a dependência. Ora, penso que o
pensamento complexo deve ligar a autonomia e a dependência.

A nossa educação nos habituou a uma concepção linear da causalidade. Temos
causas que produzem efeitos. Ora, uma das idéias mais importantes que me
parecem ter surgido nos últimos 50 anos foi a da circularidade, cristalizada pela
primeira vez por um especialista em cibernética. Para compreender a idéia de cir-
cularidade retroativa, podemos imaginar um sistema de aquecimento central: uma
caldeira alimenta os radiadores; quando se atingiu a temperatura desejada, um
termos tato faz parar o funcionamento da caldeira; se a temperatura baixa, o
termos tato faz funcionar a caldeira de novo. Há, em conseqüência, um sistema
onde o efeito atua retroativamente sobre a causa.

Passamos de uma visão linear a uma visão circular. A causalidade retroativa
possibilita compreender um fenômeno de autonomia térmica: quando faz frio lá
fora, o compartimento fica quente e, paradoxalmente, quanto mais frio faz lá fora,
mais quente fica o interior do compartimento. Esta autonÓmia, provocada pela re-
gulação (circularidade retroativa), é ela própria produzida por uma circularidade
mais intensa, chamada circularidade autoprodutiva. Em que consiste esta
circularidade? Consiste no fato de produtos e efeitos serem necessários ao
produtor e ao causador.

Tomemos dois exemplos: a vida e a sociedade. A vida é um sistema de
reprodução que produz os indivíduos. Somos produtos da reprodução dos nossos
pais. Mas, para que este processo de reprodução continue, é necessário que nós
próprios nos tomemos produtores e reprodutores de nossos filhos. Somos,
portanto, produtos e produtores no processo da vida. Da mesma maneira. somos
produtores da sociedade porque sem indivíduos humanos não existiria a
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sociedade mas, uma vez que a sociedade existe, com a sua cultura, com os seus
interditos, com as suas normas, com as suas leis, com as suas regras, produz-
nos como indivíduos e, uma vez mais, somos produtos produtores.

Produzimos a sociedade que nos produz. Ao mesmo tempo, não devemos
esquecer que somos não só uma pequena parte de um todo, o todo social, mas
que esse todo está no interior de nós próprios, ou seja, temos as regras sociais, a
linguagem social, a cultura e normas sociais em nosso interior. Segundo este
princípio, não só a parte está no todo como o todo está na parte. Isto acarreta
conseqüências muito importantes porque, se quisermos julgar qualquer coisa, a
nossa sociedade ou uma sociedade exterior, a maneira mais ingênua de o fazer é
crer (pensar) que temos o ponto de vista verdadeiro e objetivo da sociedade,
porque ignoramos que a sociedade está em nós e ignoramos que somos uma
pequena parte da sociedade. Esta concepção de pensamento dános uma lição de
prudência, de método e de modéstia.

Devo indicar, neste momento da minha exposição, que o pensamento complexo
nos abre o caminho para compreender melhor os problemas humanos. Em
primeiro lugar, não devemos esquecer que somos seres trinitários, ou seja,
somos triplos em um só. Somos indivíduos, membros de uma espécie biológica
chamada Homo Sapiens, e somos, ao mesmo tempo, seres sociais. Temos estas
três naturezas numa só. Penso que é importante sabê-Io porque, de uma maneira
geral, o nosso modo de pensamento mais habitual nos toma difícil conceber um
elo entre estas três naturezas e saber se existe unidade na humanidade ou
diversidade, heterogeneidade e, conseqüentemente, ausência de unidade. Tema
polêmico a partir do século XVIII. Há quem diga que a natureza humana é una, e
que os chineses ou africanos têm uma natureza igual à nossa e por isso, como
nós, amores, tristezas, alegrias, felicidades. Outros pensadores, como os
culturalistas, dizem que somos diferentes de cultura para cultura, não existindo
verdadeira unidade humana.

Foi muitas vezes difícil fazer compreender que o "um" pode ser "múltiplo", e que
o "múltiplo" é suscetível de unidade. Que, por exemplo, do ponto de vista do ser
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humano, há certamente unidade genética, que todos os seres humanos têm o
mesmo patrimônio genético e há unidade cerebral; por essa razão, todos os
seres humanos têm as mesmas atitudes cerebrais fundamentais. É também certo
que os seres humanos têm uma identidade profunda pelo fato de poder
desenvolver a sua nacionalidade e por serem afetivos, capazes, todos eles, de
sorrir, de rir e de chorar. A observação de um etólogo alemão sobre uma jovem
surda, muda e cega de nascença demonstrou que, por ela rir, chorar e sorrir, não
tinha aprendido, através do seu meio cultural, estas manifestações afetivas.

Há, logo, a unidade fundamental do ser humano; mas, ao mesmo tempo,
sabemos que certas civilizações inibem as lágrimas, enquanto outras permitem a
sua expressão; que sorrimos em condições diferentes numas e noutras; o riso, as
lágrimas e o sorriso são diferentemente modulados segundo as culturas, mas
devemos saber sobretudo que, a partir da mesma estrutura fundamental da
linguagem, se criou uma diversidade inacreditável de línguas ao longo do
desenvolvimento da espécie humana, e que as culturas geraram riquezas
extraordinárias; o tesouro da humanidade é a sua diversidade. esta não só é
compatível com a unidade fundamental, mas produzida pelas possibilidades do
ser humano.

Compreender a unidade e a diversidade é muito importante hoje, visto estarmos
num processo de mundialização que leva a reconhecer a unidade dos problemas
para todos os seres humanos onde quer que estejam; ao mesmo tempo, é
preciso preservar a riqueza da humanidade, ou seja, a diversidade cultural;
vemos, por exemplo, que as diversidades não são só as das nações, mas estão
também no interior destas; cada província, cada região, tem a sua singularidade
cultural, a qual deve guardar ciosamente.

Há, no mesmo sentido, o problema com o qual estive confrontado quando quis
escrever meu livro "O Homem e a morte": a multidimensionalidade humana. A
interrogação que me coloquei desde o início foi a seguinte: O homem btá, como
todos os seres biológicos, submetido à morte; por isso, no domínio da morte, é
semelhante a todos os outros seres vivos; mas o homem é o único ser vivo que
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acredita existir uma vida após a morte, que pratica ritos fúnebres, que tem uma
mitologia da morte, porque acredita que a morte existe, quer um renascimento,
quer a sobrevivência de um fantasma, quer a ressurreição, etc. A realidade
humana é. pois, por um lado, biológica e, por outro, autobiológica, quer dizer,
mitológica.
Um dos traços importantes do meu trabalho foi deixar de subestimar os aspectos
imaginário e mitológicos do ser humano. Algo que me tinha deveras
impressionado quando assisti a uma cerimônia de Candomblé no Brasil, e da qual
participei, foi constatar que, num momento determinado, os participantes, os
crentes, invocam os espíritos ou deuses tais como Iemanjá; num dado momento,
um dos espíritos encama num dos participantes e fala através deste. Além disso,
é possível a presença de vários espíritos. O que significa tudo isto? Significa que
os deuses têm uma existência real; essa existência é-lhes conferida pela
comunidade dos crentes, pela fé, pelo rito. Mas uma vez que o deus existe, é
capaz de nos possuir, e é essa a relação particular que nutrimos com os "deuses",
ou com o nosso "Deus", ou as com nossas idéias.

Isso significa ainda que damos vida às nossas idéias e, uma vez que lhes damos
vida, são elas que indicam o nosso comportamento, que nos mandam matar ou
morrer por elas; vale dizer que tais produtos são os nossos próprios produtores, e
que as realidades imaginária e mitológica são um aspecto fundamental da reali-
dade humana.

Do mesmo modo, penso que devemos considerar a história humana de maneira
complexa. Ora, entre as maneiras não complexas de considerar a história
humana, a primeira foi a de que esta era uma sucessão de batalhas, de golpes de
Estado, de mudanças de reino, de acontecimentos importantes, de acidentes, de
guerras. Uma segunda maneira consistiu em julgar que os acidentes, as guerras,
as mudanças de reino, eram acontecimentos superficiais enquanto, na realidade,
existiria um movimento ascendente, o do progresso; as leis da história estariam
escritas no decurso da humanidade e, se surgissem acidentes, seriam provisórios.

Primeiramente, é necessário unir estas duas concepções: a dos acidentes, das
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perturbações, aquilo que Shakespeare chamou "o barulho e o furor" e, por outro
lado, as determinações, os determinismos. Isto se aplica também à história do
Universo, que começamos a conhecer como uma história que nasceu, talvez, de
uma catástrofe gigantesca, da qual surgiu o nosso mundo, criado através de
enormes destruições, porque se pensa que desde o início a matéria provocou o
genocídio da antimatéria ou, ao menos, essa antimatéria desapareceu. Em
seguida, houve o choque das estrelas, a colisão das galáxias, explosões...

Ora, o mundo produz, por um lado, galáxias, estrelas, ordem no céu e, ao mesmo
tempo, forma-se por entre a desordem; da mesma maneira, a história da terra é
uma história atormentada. Pensa-se que, na origem, foram os detritos de um sol
anterior que explodiu que se aglomeraram, tendo-se, a partir daí, produzido um
fenômeno de auto-organização da terra, com, num dado momento, o
aparecimento da primeira célula viva. Mas a verdadeira história da vida ocorreu
através de convulsões e catástrofes; houve um acidente no final da era primária
em que 97% das espécies vivas dessa época desapareceram; houve o famoso
acidente em que os dinossauros morreram, e que parece ser a conseqüência de
um meteorito conjugado com uma enorme explosão vulcânica. A história da
nossa terra é acidental, e através desses acidentes houve a extraordinária
proliferação de formas vegetais e animais, das quais, de um ramo de um ramo de
um ramo... da evolução animal surgiu o ser humano e, finalmente, a consciência
humana.

O sentido da evolução não era o de produzir por todo lado a consciência. Foi o
ramo de um ramo de um ramo que produziu a humanidade. Somos, portanto, um
produto "desviado" da história do mundo; isto nos permite compreender que a
evolução não é qualquer coisa que avança frontalmente, majestosamente, como
um rio, mas parte sempre de um "desvio" que começa e consegue impor-se,
toma-se uma grande tendência e triunfa, o que se aplica à história das idéias; no
início, Moisés é um egípcio "desencaminhado" ou "desviado" que se afastou da
sua religião quando fundou o judaísmo; o "desencaminhamento" de Jesus foi
acrescido pelo de Paulo, quando este disse não haver nem judeus, nem gentios.
Maomé, Karl Marx e Lutero foram seres "desencaminhados" ou "desviados";
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certos "desencaminhamentos" enraízam-se e transformam-se em tendências
fortes.

Isso deve tornar mais complexa a nossa visão da história e levar-nos a
compreender a incerteza do nosso tempo, visto que não há progresso necessário
e inelutável; sabemos que todos os progressos adquiridos podem ser destruídos
pelos nossos inimigos mais implacáveis: nós mesmos, dado que hoje a
humanidade é a maior inimiga da humanidade. Sabemos, atualmente, que o
progresso deve ser regenerado; sabemos ainda que a barbárie constitui uma
ameaça, e vivemos mais do que nunca na incerteza, porque ninguém pode
adivinhar o que será o dia de amanhã. O nosso destino é, pois, incerto, e
ninguém sabe qual o destino do Cosmos.

Devemos, porém, poder situar-nos nesta incerteza. A nossa situação é, em
virtude desta constatação, extremamente complexa, porque somos,
integralmente, filhos do Cosmos e estranhos a esse mesmo Cosmos. Poderia
exemplificar com o organismo humano, mas vou tomar simplesmente o exemplo
de um copo de vinho do Porto. Se pegarem um copo de vinho do Porto e o inter-
rogarem, podem ter a certeza de que nesse vinho do Porto há partículas que se
formaram nos primeiros segundos do Universo, ou seja, há cerca de sete a
quinze milhões de anos; há também o hidrogênio, um dos primeiros elementos a
ser formado no Universo, e produtos do átomo do carbono, formado quando da
existência do sol anterior ao nosso. No copo de vinho do Porto, há a conjugação
de macromoléculas que se juntaram na terra para dar origem à vida e há ainda a
evolução do mundo vegetal, a evolução animal, até o homem, e a evolução
técnica que permitiu ao ser humano extrair o sumo da uva e transformá-I o,
através da fermentação, em vinho. Hoje, existem técnicas mais evoluídas, mais
sofisticadas, da informática, que permitem controlar, nos depósitos, a
fermentação desse vinho que vai transformar-se em vinho do Porto. Dito de outra
maneira, num copo de vinho do Porto temos toda a história do Cosmos e,
simultaneamente, a originalidade de uma bebida encontrada apenas na região
do Douro.

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Somos filhos da natureza viva da terra e estrangeiros a nós próprios. Esta
reflexão leva-nos a abandonar a idéia que considerava o ser humano como
centro do mundo, mestre e dominador da natureza, defendida por grandes
filósofos ocidentais como Bacom, Descartes, Buffon, Karl Marx. Hoje, essa
ambição parecenos completamente irrisória, porque vivemos num planeta minús-
culo, satélite de um pequeno sol de segunda classe, que faz parte de uma
galáxia extremamente periférica; estamos, por essa razão, perdidos no Universo.
Mas, se devemos abandonar a visão que faz do homem o centro do mundo,
devemos salvaguardar a visão humanista que nos ensina que é necessário salvar
a humanidade e civilizar a terra. Abandonemos a missão de Prometeu e tomemo-
nos seres terrestres, quer dizer, cidadãos da terra, o que nos remete à idéia por
mim desenvolvida no livro Terra-Pátria; para compreendê-Ia, é necessário refletir
sobre a palavra "Pátria". A palavra "Pátria" significa três coisas: identidade
comum, comunidade de origem, do destino e de idéias.
• Identidade comum, como já tive a ocasião de referir.
• Comunidade de origem e comunidade de destino, segundo os
dados do conhecimento da hominização e da pré-história: parece
haver uma origem comum da humanidade - o continenteAfricano. É
possível que o "HomoSapiens" tenha partido da África e povoado o
mundo, assim como é possível que os antepassados do "Homo
Sapiens", através do processo de mestiçagem, tenham suscitado na
Europa, na Ásia e na África, o aparecimento da nossa espécie; de
qualquer maneira, há uma comunidade de origem pertencente ao
ramo particular da evolução dos seres vivos. Comunidade de destino:
fazer parte de uma Pátria significa participar de um destino comum;
ora, esse destino relacionado com a pátria é um destino que nos vem
do passado. Participa-se da Pátria Portuguesa porque se aprende a
história de Portugal e tomase parte nas suas dificuldades, nos seus
sofrimentos, nas suas grandezas e nas suas glórias; incorpora-se o
destino comum dos antepassados. A idéia de comunidade de destino
terrestre é uma idéia recente. Vem da era planetária, quer dizer, do
momento em que os fragmentos dispersos da humanidade
começaram a encontrar-se; no início, de maneira extremamente
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violenta e brutal, através das conquistas e da colonização. Hoje,
todos os seres humanos, apesar de viverem situações diferentes,
têm os mesmos problemas fundamentais de vida e morte. Temos
necessidade de nos proteger de desastres que podem destruir o
homem.
. Comunidade de idéias: esta noção faz-nos abandonar a alternativa banal
segundo a qual, no caso de sermos cosmopolitas, não teríamos raízes e, no caso
de termos Pátria, seria uma Pátria singular fechada sobre ela própria.

A idéia de "Terra-Pátria" não nos desenraíza, ao contrário; estamos enraizados
em nosso destino terrestre, o qual engloba e respeita todas as Pátrias. Podemos
ser membros de várias Pátrias concêntricas. Sinto-me profundamente membro da
pátria francesa, mediterrâneo, europeu e cidadão da Terra. Podemos viver di-
ferentes Pátrias de maneira concêntrica em vez de negar uma, privilegiando outra. 
O pensamento complexo conduz-nos a lima série de problemas fundamentais do
destino humano, que depende, sobretudo, da nossa capacidade de compreender
os nossos problemas essenciais, contextualizando-os, globalizando-os, in-
terligando-os: e da nossa capacidade de enfrentar a incerteza e de encontrar os
meios que nos permitam navegar num futuro incerto, erguendo ao alto a nossa
coragem e a nossa esperança.
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Vencer a especialização

Enquanto a cultura geral comportava a possibilidade de buscar a
contextualização de toda informação ou idéia, a cultura científica e técnica, por
causa de sua característica disciplinar e especializada, separa e compartimenta
os saberes, tomando cada vez mais difícil a colocação destes num contexto
qualquer. Além disso, até a metade do século XX, a maioria das ciências tinha
por método de conhecimento a redução (do conhecimento de um todo ao
conhecimento das partes que o compõem), por conceito fundamental o
determinismo, isto é, a ocultação do acaso, do novo, da invenção, e a aplicação
da lógica mecânica da máquina artificial aos problemas vivos, humanos e sociais.
A especialização abstrai, extrai um objeto de seu contexto e de seu conjunto,
rejeita os laços e a intercomunicação do objeto com o seu meio, insere-o no
compartimento da disciplina, cujas fronteiras quebram arbitrariamente a
sistemicidade (a relação de uma parte com o todo) e a multidimensionalidade dos
fenômenos, e conduz à abstração matemática, a qual opera uma cisão com o
concreto, privilegiando tudo aquilo que é calculável e formalizável.

Assim, a economia, a ciência social matematicamente mais avançada, é também
a ciência social e humanamente mais fechada, pois se abstrai das condições
sociais, históricas, políticas, psicológicas, ecológicas, etc, inseparáveis das
atividades econômicas. Por isso, os seus experts são cada vez mais incapazes
de prever e de predizer o desenvolvimento econômico, mesmo a curto prazo.
O conhecimento deve certamente utilizar a abstração, mas procurando construir-
se em referência a um contexto. A compreensão de dados particulares exige a
ativação da inteligência geral e a mobilização dos conhecimentos de conjunto.
Marcel Mauss dizia: "É preciso recompor o todo". Acrescentemos: é preciso mo-
bilizar o todo. Certo, é impossível conhecer tudo do mundo ou captar todas as
suas multiformes transformações. Mas, por mais aleatório e difícil que seja, o
conhecimento dos problemas essenciais do mundo deve ser tentado para evitar a
imbecilidade cognitiva. Ainda mais que o contexto, hoje, de todo conhecimento
político, econômico, antropológico, ecológico, etc, é o próprio mundo. Eis o
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problema universal para todo cidadão: como adquirir a possibilidade de articular e
organizar as informações sobre o mundo. Em verdade, para articulá-Ias e
organizá-Ias, necessita-se de uma reforma de pensamento.
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A falsa racionalidade

A falsa racionalidade - a racionalização abstrata e unidimensional-  triunfa
atualmente por toda parte. As mais monumentais obras-primas dessa
racionalidade tecnoburocrática foram realizadas na URSS, onde, por exemplo,
desviaram-se o curso dos rios para irrigar nas horas mais quentes hectares sem
árvores de cultivo de algodão, gerando a salinização do solo, a volatilização das
águas subterrâneas, o esgotamento do mar de Aral. Infelizmente depois do
desabamento do Império, os novos dirigentes recorreram a experts liberais do
Oeste que, ignorando deliberadamente a necessidade de instituições, de leis e de
regras numa economia competitiva de mercado, não elaboram a indispensável
estratégia complexa. Entretanto, Maurice Allais - economista liberal - havia
indicado que seria necessário planificar a desplanificação e programar a
desprogramação. O resultado de tudo isso são as catástrofes humanas, cujas
vítimas não são contabilizadas e não têm as garantias dos atingidos pelas
catástrofes naturais.

A inteligência parcelar, compartimentada, mecânica, disjuntiva, reducionista,
quebra o complexo do mundo, produz fragmentos, fraciona os problemas, separa
o que é ligado, uni dimensionaliza o multidimensional. Trata-se de uma
inteligência ao mesmo tempo míope, presbita, daltônica, zarolha. Elimina na
casca todas as possibilidades de compreensão e de reflexão, matando assim
todas as chances de julgamento corretivo ou de visão a longo termo. Quanto mais
os problemas se tomam multidimensionais, mais há incapacidade para pensar
essa multidimensionalidade; quanto mais a crise avança, mais progride a
incapacidade de pensá-Ia; quanto mais os problemas se tomam planetários, mais
se tornam impensados. Incapaz de considerar o contexto e o complexo planetário,
a inteligência cega produz inconsciência e irresponsabilidade.

Compreendemos então um problema essencial: complementar o pensamento
que separa com outro que une. Complexus significa originariamente o que se
tece junto. O pensamento complexo, portanto, busca distinguir (mas não separar)
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e ligar. Ao mesmo tempo, impõe-se, como vimos acima, outro problema crucial:
tratar a incerteza. Por quê? Porque por toda parte, nas ciências, o dogma de um
determinismo universal desabou, enquanto a lógica, chave-mestra da certeza do
raciocínio, revelou incertezas na indução, impossibilidades de decisão na
dedução e limites no princípio do terceiro incluído. Assim, o objetivo do
pensamento complexo é ao mesmo tempo unir (contextualizar e globalizar) e
aceitar o desafio da incerteza. Como?

Princípios

Podemos estabelecer alguns princípios, complementares e interdependentes,
como guias para pensar a complexidade.

1. Princípio sistêmico ou organizacional: liga o conhecimento
das partes ao conhecimento do todo, conforme a ponte indicada por
Pascal e mencionada antes: "Tenho por impossível conhecer o todo
sem conhecer as partes, e conhecer as partes sem conhecer o todo".
A idéia sistêmica, oposta à reducionista, entende que "o todo é mais
do que a soma das partes". Do átomo à estrela, da bactéria ao
homem e à sociedade, a organização do todo produz qualidades ou
propriedades novas em relação às partes consideradas
isoladamente: as emergências. A organização do ser vivo gera
qualidades desconhecidas de seus componentes físico-químicos.
Acrescentemos que o todo é menos do que a soma das partes, cujas
qualidades são inibidas pela organização de conjunto.

2. Princípio "hologramático" (inspirado no holograma, no
holograma, no qual cada ponto contém a quase totalidade da
informação do objeto representado): coloca em evidência o aparente
paradoxo dos Sistemas complexos, onde não somente a parte está
no todo, mas o todo se inscreve na parte. Cada célula é parte do
todo -organismo global- mas o próprio todo está na parte: a
totalidade do patrimônio genético está presente em cada célula
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individual; a sociedade como todo, aparece em cada indivíduo,
através da linguagem, da cultura, das normas.

3. Princípio do anel retroativo: introduzido por Norbert Wiener,
permite o conhecimento dos processos de auto-regulação. Rompe
com o princípio de causalidade linear: a causa age sobre o efeito, e
este sobre a causa, como no sistema de aquecimento no qual o
termostato regula a situação da caldeira. Esse mecanismo de
regulação permite a autonomia do sistema, neste cnso, a autonomia
térmica de um apartamento em relação ao frio exterior. De maneira
mais complexa, a "homeostase" de um organismo vivo é um
conjunto de processos reguladores fundados sobre múltiplas
retroações. O anel de retroação (ou feedback) possibilita, na sua
forma negativa, reduzir o desvio e, assim, estabilizar um sistema. Na
sua forma mais positiva, o feedback é um mecanismo amplificador;
por exemplo, na situação de apogeu de um conflito: a violência de
um protagonista desencadeia uma reação violenta que, por sua vez,
determina outra reação ainda mais violenta. Inflacionistas ou
estabilizadoras, as retroações são numerosas nos fenômenos
econômicos, sociais, políticos ou psicológicos.

4. Princípio do anel recursivo: supera a noção de regulação com
a de autoprodução e auto-organização. É um anel gerador, no qual
os produtos e os efeitos são produtores e causadores do que os
produz. Nós, indivíduos, somos os produtos de um sistema de
reprodução oriundo do fundo dos tempos. mas esse sistema só pode
reproduzir-se se nós mesmos nos tomamos produtores pelo
acasalamento. Os indivíduos humanos produzem a sociedade nas -
e através de - suas interações, mas a sociedade, enquanto todo
emergente, produz a humanidade desses indivíduos aportando-lhes
a linguagem e a cultura.

5. Princípio de auto-eco-organização (autonomia/dependência):
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os seres vivos são auto-organizadores que se autoproduzem
incessantemente, e através disso despendem energia para salva-
guardar a própria autonomia. Como têm necessidade de extrair
energia, informação e organização no próprio meio ambiente, a 
autonomia deles é inseparável dessa dependência, e torna-se im-
perativo concebê-Ios como auto-eco-organizadores. O princípio de
auto-eco-organização vale evidentemente de maneira específica
para os humanos, que desenvolvem a sua autonomia na depen-
dência da cultura, e para as sociedades que dependem do meio geo-
ecológico.
Um aspecto determinante da auto-eco-organização é que esta se
regenera em permanência a partir da morte de suas
células,conforme a fórmula de Heráclito, "viver de morte, morrer de
vida", e que as duas idéias antagônicas de morte e de vida são aí
complementares, mesmo permanecendo antagônicas.

6. Princípio dialógico: vem justamente de ser ilustrado pela
fórmula heraclitiana. Une dois princípios ou noções devendo excluir
um ao outro, mas que são indissociáveis numa mesma realidade.
Deve-se conceber uma dialógica ordem/desordem/organização
desde o nascimento do universo: a partir de uma agitação calorífica
(desordem) onde, em certas condições (encontros ao acaso),
princípios de ordem permitirão a constituição de núcleos, átomos,
galáxias e estrelas. Tem-se ainda essa dialógica quando da
emergência da vida através dos encontros entre macromolécuIas no
interior de uma espécie de anel autoprodutor, que terminará por se
tornar auto-organização viva. Sob as formas mais diversas, a
dialógica entre a ordem, a desordem e a organização, através de
inumeráveis inter-retroações, está constantemente em ação nos
mundos físico, biológico e humano.
A dialógica permite assumir racionalmente a associação de noções
contraditórias para conceber um mesmo fenômeno complexo. Niels
Bohr reconheceu, por exemplo, a necessidade de ver as partículas
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físicas ao mesmo tempo como corpúsculos e como ondas. Nós
mesmos somos seres separados e autônomos, fazendo parte de
duas continuidades inseparáveis, a espécie e a sociedade. Quando
se considera a espécie ou a sociedade, o indivíduo desaparece;
quando se considera o indivíduo, a espécie e a sociedade
desaparecem. O pensamento complexo assume dialogicamente os
dois termos que tendem a se excluir.

7. Princípio da reintrodução daquele que conhece em todo
conhecimento: esse princípio opera a restauração do sujeito e ilu-
mina a problemática cognitiva central: da percepção à teoria ci-
entífica, todo conhecimento é uma reconstrução/tradução por um
espírito/cérebro numa certa cultura e num determinado tempo.


Eis alguns dos princípios que guiam os procedimentos cognitivos do pensamento
complexo. Não se trata, de forma alguma, de um pensamento que expulsa a
certeza com a incerteza, a separação com a inseparabilidade, a lógica para
autorizar-se todas as transgressões. A démarche consiste, ao contrário, num ir e
vir constantes entre certezas e incertezas, entre o elementar e o global, entre o
separável e o inseparável. Ela utiliza a lógica clássica e os princípios de
identidade, de não-contradição, de dedução, de indução, mas conhece-Ihes os
limites e sabe que, em certos casos, deve-se transgredi-Ios. Não se trata portanto
de abandonar os princípios de ordem, de separabilidade e de lógica - mas de
integrá-Ios numa concepção mais rica. Não se trata de opor um holismo global
vazio ao reducionismo mutilante. Trata-se de repor as partes na totalidade, de
articular os princípios de ordem e de desordem, de separação e de união, de
autonomia e de dependência, em dialógica (complementares, concorrentes e
antagônicos) no universo.

Em suma, o pensamento complexo não é o contrário do pensamento
simplificador, mas integra este; como diria Hegel, ele opera a união da
simplicidade e da complexidade e, mesmo no metassistema constituído, faz
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aparecer a sua própria simplicidade. O paradigma da complexidade pode ser
enunciado não menos simplesmente que o da simplificação: este impõe separar e
reduzir; aquele une enquanto distingue.


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O pano de fundo filosófico

Encontram-se, na história da filosofia ocidental e oriental, numerosos elementos e
premissas de um pensamento da complexidade. Desde a Antigüidade, o
pensamento chinês funda-se sobre a relação dialógica (complementar e
antagônica) entre o yin e o yang e, segundo Lao Tsé, a união dos contrários
caracteriza a realidade. No século XVII, Fang Yizhi formula um verdadeiro
princípio de complexidade. No Ocidente, Heráclito estabeleceu a necessidade de
associar termos contraditórios. Na idade clássica, Pascal é o pensador chave da
complexidade. Mais tarde. Kant pôs em evidência os limites e as "aporias" da
razão. Leibniz formula o princípio da unidade complexa da unidade do múltiplo.
Spinoza aporta a idéia de autoprodução do mundo. Em Hegel, essa au-
toconstituição torna-se o romance épico no qual o espírito emerge da natureza
para atingir a sua realização, e sua dialética, prolongada pela de Marx, anuncia a
dialógica. Nietzsche anunciou a crise dos fundamentos da certeza. No
metamarxismo, tem-se, com Adorno, Horkheimer e o Lukács tardio, não somente
numerosos elementos de uma crítica da razão clássica, mas muitos alimentos
para uma concepção da complexidade.

No século XIX, enquanto a ciência ignorava o individual, o singular, o concreto e
o histórico, a literatura e singularmente o romance revelaram a complexidade
humana, de Balzac a Dostoievski e Proust.

Na época contemporânea, o pensamento complexo elabora-se nos interstícios
das disciplinas, a partir de pensadores matemáticos (Wiener, von Neumann, von
Foerster), especialistas em termodinâmica (Prigogine), biofísicos (Atlan), filósofos
(Castoriadis). As duas revoluções científicas do século só podiam estimulá-lo. A
primeira revolução introduz a incerteza com a termodinâmica, a física quântica e
a cosmofísica, desencadeando as reflexões epistemológicas de Popper, Kuhn,
Holton, Lakatos. Feyerabend; estes mostraram que a ciência não era a certeza,
mas a hipótese; que uma teoria provada não o era definitivamente, e permanecia
"falseável", que havia do não-científico (postulados, paradigmas, themata) no
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coração da própria cientificidade.

A segunda revolução científica - mais recente, ainda inacabada -, a revolução
sistêmica, introduz a organização nas ciências da terra e a ciência ecológica; ela
se prolongará, sem dúvida, em revolução d.: auto-eco-organização na biologia e
na sociologia.

O pensamento complexo é, portanto, essencialmente aquele que trata com a
incerteza e consegue conceber a organização. Apto a unir,contratualizar,
globalizar, mas ao mesmo tempo a reconhecer o singular, o individual e o
concreto.

O pensamento complexo não se reduz nem à ciência, nem à filosofia, mas
permite a comunicação entre elas, servindo-Ihes de ponte. O modo complexo de
pensar não tem utilidade somente nos problemas organizacionais, sociais e
políticos, pois um pensamento que enfrenta a incerteza pode esclarecer as
estratégias no nosso mundo incerto; o pensamento que une pode iluminar uma
ética da religação ou da solidariedade. O pensamento da complexidade tem
igualmente seus prolongamentos existenciais ao postular a compreensão entre os
homens.

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Por uma reforma da universidade do pensamento


A complexidade exige uma reforma de pensamento, o que pressupõe mudar a
universidade. Como fazê-Ia? Há uma dupla missão: a universidade deve se
adaptar à sociedade ou a sociedade deve se adaptar à universidade? Todos
adivinharão que recusarei a escolha e tentarei ultrapassá-Ia de forma complexa.
Ainda que tenha antecedentes em Bagdá e em Fez, a universidade, como se
disse com freqüência, é o grande presente da Europa medieval à Europa
moderna. Em menos de dois séculos, uma constelação de universidades jorrou
de Bolonha a Upsala, de Coimbra a Praga. A universidade é conservadora,
regeneradora, geradora. Conserva, memoriza, integra, ritualiza um patrimônio
cognitivo; regenera-o pelo reexame, atualizando-o, transmitindo-o; gera saber e
cultura que entram nessa herança.

A esse título, a universidade tem uma missão e uma função transecular que, via
presente, vai do passado para o futuro; missão transnacional que guardou a
despeito da tendência ao fechamento nacionalista das nações modernas. E
dispõe de uma autonomia que lhe permite realizar essa missão. .

Segundo os dois sentidos do termo conservação, o caráter conservador da
universidade pode ser vital ou estéril. A conservação é vital se ela significa
salvaguarda e preservação, pois só se pode preparar um futuro salvando um
passado, e estamos num século em que múltiplas e potentes forças de
desintegração cultural atuam. Mas a conservação é estéril se dogmática,
congelada, rígida. Assim, a Sorbonne condenou todos os progressos científicos
do século XVII, e a ciência moderna formou-se em grande parte fora das
universidades ao longo desse século.

Mas a universidade soube responder ao desafio do desenvolvimento das ciências
operando sua grande mutação no século XIX. Ela se laicizou, isto é, abriu-se à
grande problematização generalizada e fundamental oriunda do Renascimento,
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que diz respeito ao mundo, à natureza, à vida, ao homem, a Deus. A universidade
tomou-se o lugar por excelência da problematização, recolhendo nela a essência
da cultura européia moderna, e através disso se inscreveu mais profundamente
na sua missão transecular, reatando com a antigüidade grega e romana, e
inclinando-se para um futuro cognitivo a descobrir ou conquistar.

A primeira mutação institucional se opera em Berlim, em 1809, quando Humboldt
conta com o apoio de um "déspota esclarecido". A laicização é a base da reforma;
ela estabelece a autonomia da universidade em relação à religião e ao poder;
instaura a liberdade interior (o princípio da livre consciência); instala de maneira
geral a problematização.

A reforma introduz as ciências modernas, com a criação de departamentos que
vão se multiplicar com as novas ciências. A universidade vai desde então fazer
coexistir - infelizmente apenas coexistir, e não comunicar - duas culturas, a
cultura das humanidades c a cultura da cientificidade.

Ao criar os departamentos, Humboldt tinha muito bem visto o caráter transecular
da integração das ciências na universidade. Para ele, a universidade não podia
ter por vocação direta uma formação profissional (conveniente para as escolas
técnicas), mas uma vocação indireta pela formação de uma atitude de pesquisa.
De onde a dupla função paradoxal da universidade: adaptar-se à modernidade
científica e integrá-Ia, responder às necessidades fundamentais de formação,
fornecer professores às novas profis sões técnicas e outras... mas também
fornecer um ensino metaprofissional, metatécnico.

Aqui, reencontramos a missão transecular pela qual a universidade conclama a
sociedade a adotar sua mensagem e suas normas:
1. Inocular na sociedade uma cultura que não é feita para
as formas provisórias ou efêmeras do hic et nunc, mas que é, contudo, feita para
ajudar os cidadãos a viver o destino hic et nunc.

2. Defender, ilustrar e promover no mundo social e político os valores
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intrínsecos à cultura universitária: autonomia da consciência,
problematização (com sua conseqüência, que é a manutenção da pesquisa
aberta e plural), primado da verdade sobre a utilidade, a ética do
conhecimento.
3. De onde a vocação expressa na dedicatória do frontão da
Universidade de Heidelberg: "Ao espírito vivo".


Há complementaridade e antagonismo entre as duas missões: adaptar-se à
sociedade e adaptar a si a sociedade - uma remete a outra, num círculo que
deveria ser produtivo. Não se trata somente de modernizar a cultura, trata-se de
culturalizar a modernidade.


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Os desafios do século XX

O século XX impôs vários desafios à dupla missão.
Há antes de tudo a pressão superadaptativa que força a conformar o ensino e
a pesquisa às demandas econômicas, técnicas, administrativas do momento, a
se conformar aos últimos métodos, às últimas receitas no mercado, a reduzir o
ensino geral, a marginalizar a cultura humanista. Ora, sempre na vida e na
história, a superadaptação a condições dadas foi não signo de vitalidade, mas
anúncio de senilidade e de morte, pela perda da substância inventiva e
criadora.

Existe, além disso, a compartimentação e a disjunção entre cultura humanista e
cultura científica, acompanhadas pela compartimentação entre as diferentes
ciências e disciplinas. A não comunicação entre as duas culturas determina
graves conseqüências para ambas. A cultura humanista revitaliza as obras do
passado; a cultura científica só valoriza as aquisições do presente. A cultura
humanista é uma cultura geral que, via filosofia, ensaio, romance, expõe os
problemas humanos fundamentais e reclama a reflexão. A cultura científica
suscita um pensamento fadado à teoria, mas não uma reflexão sobre o destino
humano e sobre o futuro da própria ciência. A fronteira entre as duas culturas
atravessa, de um extremo a outro, a sociologia, mas esta se deixa esquartejar
em vez de tentar uma ponte de ligação.

Tudo isso exige uma reforma do pensamento. O saber medieval era
demasiado bem organizado e podia tomar a forma de uma "suma" coerente. O
saber contemporâneo é disperso, separado,fechado. Já há uma reorganização
do saber em curso. A ecologia científica, as ciências da terra, a cosmologia, etc,
são ciências pluridisciplinares que têm por objeto não um território ou um setor,
mas um sistema complexo: o ecossistema e, mais amplamente, a biosfera para
a ecologia, o sistema terra para as ciências da terra e, para a cosmologia, a
estranha propensão do universo a formar e arruinar os sistemas galácticos e
solares.
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Por toda parte, se reconhece a necessidade de interdisciplinaridade, esperando
o reconhecimento da relevância da transdisciplinaridade, seja para o estudo da
saúde, da velhice, da juventude, das cidades... mas a transdisciplinaridade só é
uma solução no caso de uma reforma do pensamento. É preciso substituir um
pensamento que separa por um pensamento que une, e essa ligação exige a
substituição da causalidade uni linear e unidimensional por uma causalidade em
círculo e multirreferencial, assim como a troca da rigidez da lógica clássica por
uma dialógica capaz de conceber noções ao mesmo tempo complementares e
antagônicas; que o conhecimento da integração das partes num todo seja
completada pelo reconhecimento da integração do todo no interior das partes.

A reforma do pensamento permitirá frear a regressão democrática que suscita,
em todos os campos da política, a expansão da autoridade dos experts,
especialistas de todos os tipos, estreitando progressivamente a competência dos
cidadãos, condenados à aceitação ignorante das decisões dos pretensos
conhecedores, mas de fato praticantes de uma inteligência cega, posto que par-
celar e abstrata, evitando a global idade e a contextualização dos problemas. O
desenvolvimento de uma democracia cognitiva só é possível numa
reorganização do saber, a qual reclama uma reforma do pensamento capaz de
permitir não somente a separação para conhecer,mas a ligação do que está
separado.

Trata-se de uma reforma muito mais profunda e ampla do que a de uma
democratização do ensino universitário e da generalização da condição de
estudante. Trata-se de uma reforma não programática, mas paradigmática, que
diz respeito à nossa atitude em relação à organização do conhecimento.

Toda reforma desse tipo suscita um paradoxo: não se pode reformar a
instituição (as estruturas universitárias) sem a reforma anterior das mentes; mas
não é possível reformar as mentes sem antes reformar a instituição. .

Eis uma impossibilidade lógica, mas é justamente desse tipo de impossibilidade
lógica que a vida zomba. Quem educará os educadores? É necessário que eles
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se auto-eduquem, e se eduquem prestando atenção às gritantes necessidades
do século, as quais são encarnadas também pelos estudantes.

Certo, a reforma se anunciará a partir de iniciativas marginais, freqüentemente
aberrantes; mas caberá à própria universidade realizar a reforma. No seu
relatório anual de 1986, o reitor de Harvard declarou: "Nem o jogo da
concorrência, nem os esforços deliberados dos reformadores externos foram
capazes de garantir um constante nível elevado de atividades. É a Universidade
que deve encarregar-se dessa tarefa vital".

Sim, precisa-se de idéias externas, críticas e contestações de fora, mas é
fundamental, sobretudo, a reflexão interna. A reforma virá do interior, através do
retomo às fontes do pensamento europeu moderno: a problematização. Hoje,
não basta problematizar o homem, deve-se problematizar a ciência, a técnica - o
que acreditávamos ser a razão e era, com freqüência. uma abstrata
racionalização.

Uma psicologia cognitiva elementar nos lembra algumas evidências que não
deveríamos nunca esquecer:
1. O cérebro humano é, como o dizia H. Simon, um a.s.p.,
General Setting Problems e também General Solving Problems. Mais
potente é a sua atitude geral, e maior será a sua atitude para tratar de
problemas particulares.

2. O conhecimento progride, principalmente, não por so-
fisticação na formalização e na abstração, mas através da capacidade
em contexlualizar e em globalizar. Essa capacidade necessita de uma
cultura geral e diversificada, e, estimulada essa cultura, o pleno
emprego da inteligência geral, isto é, o espírito vivo.

Eis a perspectiva para o novo milênio. A universidade deve ultrapassar-
se para se reencontrar.

Debaixo da saia
heberle

Retrato em preto e branco


Quando os Estados nacionais começaram a se consolidar precisaram construir uma narrativa sobe si mesmos que os diferenciasse dos outros. Os Estados Unidos, carentes de mão de obra e com um imenso território hostil, criaram o mito da “Terra da Oportunidade”, onde qualquer um, caso se esforçasse, conseguiria sucesso. Aqui, criamos vários mitos, e o que mais persiste é o das “três raças” que convivem harmoniosamente.
Esta falácia brasileira encontra adeptos até hoje, que insistem em dizer que não existe racismo entre nós e a discriminação seria, no máximo, de carácter socioeconômico. Nessa linha, haveria uma discriminação contra os pobres (potencialmente ladrões) que, por uma tristeza histórica, por um legado de mais de cem anos nunca encarado de frente, são maioritariamente negros. Isso aplaca nossa culpa e joga nosso racismo para baixo do tapete, transformando-o numa coisa mais palatável.
Esta tese foi repetida exaustivamente quando do debate sobre as cotas raciais. “Não somos racistas, não há discriminação racial, portanto, as cotas, ao invés de solucionarem um problema, o criarão”. Em suma é este o pensamento de Ali Kamel e seu pupilos, Arnaldo Jabor e Demétrio Magnoli (este último brilhantemente refutado, com requintes de crueldade, pelo professor do Departamento de Antropologia da USP, Kabengele Munanga).
Somos cordiais, amigos, sambistas por excelência, boleiros desde o nascimento, despidos de qualquer racismo. Quem insiste no contrário é porque quer dividir este povo tão amável! Mas eles esqueceram de combinar com a Agência Estado. Uma matéria publicada na úlitma terça-feira (08) mencionava que somos mais exigentes que os gringos na hora de adotar uma criança. “Segundo dados do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP), quase 100% dos casais brasileiros recusam crianças negras, pardas e indígenas, enquanto 77% dos estrangeiros são indiferentes à cor da pele.”
Aqui, nesta simples matéria, o racismo é desmascarado duplamente. Vejamos a proporção. Quase 100% dos possíveis pais adotivos brasileiros não adotam crianças que não sejam brancas. Para os estrangeiros, isso fica em torno de 23%.
A verdade, no entanto, se revela quanto mais se tenta escondê-la. Digamos que isto seja um famoso “ato falho”. A matéria fala que somos “mais exigentes” que os gringos. Numa primeira leitura imaginei algo mais irrelevante como exigência, talvez a idade. Pais adotivos quereriam bebês, e não crianças, ou não querem que o bebe seja fruto de um incesto…
Mas não, os casais brasileiros se recusam a adotar não-brancos e condenam os milhares de recém-nascidos negros, pardos ou indígenas a uma vida em orfanato simplesmente por serem… negros, pardos ou indígenas!
Segundo a mesma matéria, temos hoje 31.000 mil casais querendo adotar, ansiosos por ter um filho, e apenas 8000 crianças para adoção. Mas não tão ansiosos assim, afinal somos um povo criterioso, exigente, não nos contentamos com qualquer criança. Ela tem que ter saúde, ser fruto de uma relação saudável… e, a maior das exigências: ser branca.
A reportagem se refere exatamente a isso, em uma linguagem criteriosamente escolhida para tentar esconder o enorme preconceito e, por isso mesmo, o revela. Num jogo de mostra-e-esconde, tentamos esconder nosso racismo, mas revelamos, como nunca, nossa hipocrisia.

por Por Walter Hupsel 

não somos racistas Ali Kamel
Jabor e a cor
adoção de crianças 
Kabengele Munanga responde a Demétrio Magnoli
Monstros tristonhos

Nós vamos invadir sua sala


Ipod, Ipad, TV Online. Veja como essas inovações propõem mudanças culturais e direcionam tendências de mercado.
O lançamento do Apple TV traz à tona uma nova convergência da nossa conhecida televisão. Desde o surgimento do YouTube e serviços que oferecem o grátis em contraposição ao exclusivo, como o Hulu, é comentado o fim da TV. No entanto, vemos o quão longe está esta realidade. O que mudou, apenas, é o modo de assisti-la, que passou a ser ativo e muitos anunciantes começam a se preocupar em como atingir seus consumidores nesse novo formato.
Entram em cena novos conceitos como o Apple TV, Google TV, Netflix para dar outra função à TV e contrariar as previsões da substituição pelo computador.
No Brasil, este é um longo caminho, já que a TV aberta possui grande aceitabilidade mesmo com as mudanças de comportamento percebidas nos consumidores, que passam a utilizar a internet para assistir seus programas favoritos. Em paralelo, temos um interessante nicho que começa a surgir com a chegada do Ipad, antes mesmo de seu lançamento oficial no Brasil, da Apple TV.

Case de sucesso: Apple TV
Ao contrário da concorrência, mais uma vez, Steve Jobs apostou contra a maré e lançou a Apple TV sem uma AppStore, modelo já consolidado de sucesso para o Iphone, Ipad ou Ipod. Para o guru, as pessoas sentam em frente à TV para entretenimento e não para acessar um computador. Essa é a característica que diferencia Apple e Google: enquanto a primeira começa simples e adiciona a complexidade gradualmente, a segunda companhia Google oferece todas as possibilidades para ver qual emplaca. O projeto Google TV é bem mais complexo e conta com busca, aplicativos e internet, mas, a um preço bem menos acessível.
Assim como o sucesso do mercado de aplicativos para Iphone e Ipad, o lançamento de aplicativos para Apple TV promete prover um novo mercado, tanto para desenvolvedores quanto para anunciantes conversarem com seus consumidores de uma maneira mais próxima, mais contextualizada e, principalmente, que dribla a inexistência do intervalo comercial.
A TV e a sala de estar estão em transformação, uma vez que o entretenimento ganha maior amplitude. Kinetic, Nintendo Wii, Internet na TV, 3D, são novos instrumentos para a mesma satisfação que tínhamos ao assistir “Sessão da Tarde” na TV aberta. Assim, surgem oportunidades para desenvolvedores apostarem nessa nova corrente.
Imagine, por exemplo, que com estes aplicativos é possível transformar Apple TV e Google TV em uma plataforma de jogos, de relacionamento em redes sociais e, de quebra, de seriados, programas e filmes. Com o Facetime, aplicativo da Apple que faz chamadas no Iphone 4 com vídeo, você poderia falar com alguém que esteja no celular, com vídeo, sentado em sua sala de estar através da TV, por exemplo.
Será um mercado lucrativo? Talvez. O iPad vendeu 2 milhões de unidades nos dois primeiros meses de mercado e a Apple, segundo Steve Jobs, pagou aos desenvolvedores mais de US$1 bilhão, uma média de quase US$ 4.400 por aplicativo. A taxa de crescimento atual da AppStore deve passar a marca de 10 bilhões de downloads no início de Abril de 2011.
O entrave para o mercado brasileiro está na burocracia e a aparente falta de interesse pela Apple, enquanto que nos Estados Unidos a marca alcançou, finalmente, a característica de marca de massa.
Por aqui, ainda é tratado por anunciantes como nicho de um público mais elitizado, com o intuito de agregar à marca conceitos de inovação em torno de seus aplicativos. E os desenvolvedores aproveitam justamente a audiência global para potencializarem suas vendas e nunca focam apenas no mercado brasileiro.
Façam suas apostas. Eu aposto sempre no Steve, mas ele não está, por hora, para guiar o mercado.
Vitor Elman é sócio e diretor de criação da agência Cappuccino Digital - vitor@cappuccinodigital.com.br

Portal HSM
11/02/2011
fonte:

oogle analisa novas formas de financiar indústria de livros- noticia velha 15 de outubro de 2010


Empresa quer viabilizar uma nova plataforma de pagamentos junto às editoras e que capitalize ainda mais o conteúdo.

Phillip Schindler, diretor de operações do Google para a Europa Oriental, anunciou na última quinta-feira (14/10), que o a gigante de buscas vem negociando com as principais editoras de livros do mundo, novas formas de capitalizar o conteúdo editorial.
“Nos vemos como um parceiro de tecnologia e queremos trabalhar com as editoras para viabilizar uma nova plataforma de pagamentos”, afirmou Schindler, durante o evento Media Days, em Munique, na Alemanha. "Acreditamos que os direitos autorais devem ser protegidos e que todo conteúdo é valioso. Queremos que nos aliar às editoras para ajustar seus modelos de negócios à era digital".
As declarações foram feitas logo após o encerramento da Feira do Livro de Frankfurt, que aconteceu entre os dias 06 e 10 de outubro. Na ocasião, o Google anunciou que estava tudo pronto para o lançamento do Google Editions que, segundo a empresa, será a maior biblioteca digital do mundo.
Apesar de Schindler não divulgar data do início das atividades do Google Editions ou os parceiros da plataforma, ele anunciou algumas estratégias de venda. Uma delas é uma espécie de “pay-per-artigo”, onde os leitores pagam apenas pelo conteúdo específico de um jornal ou revista. Será possível também adquirir publicações por meio de smartphones e tablets.
Ainda de acordo com o executivo, o Google deixará a cargo das editoras o modo de como elas preferem obter seus rendimentos pelo conteúdo, ao invés de impor “um rigoroso modelo vertical”.

IDG Now!

MINISTRA DA CULTURA DO BRASIL


MINISTRA DA CULTURA DO BRASIL

Brasília, 03 de janeiro de 2011.
Posse da nova ministra

Discurso de posse proferido pela nova ministra da Cultura, Ana de Hollanda.


Excelentíssimos Srs. ministros e ministras, senadores e deputados, demais autoridades presentes, caríssimos servidores do Ministério da Cultura do Brasil,

Minhas amigas, meus amigos, boa tarde.

Antes de mais nada, quero dizer que é com alegria que me encontro aqui hoje. Uma espécie de alegria que eu talvez possa definir como uma alegria densa. Porque este é, para mim, um momento de emoção, felicidade e compromisso.

Sinto-me realmente honrada por ter sido escolhida, pela presidenta Dilma Rousseff, para ser a nova ministra da Cultura do meu país.

Um momento novo está amanhecendo na história do Brasil – quando, pela primeira vez, uma mulher assume a Presidência da República. Por essa razão, me sinto também privilegiada pela escolha. Também é a primeira vez que uma mulher vai assumir o Ministério da Cultura. E aqui estou para firmar um compromisso cultural com a minha gente brasileira.

Durante a campanha presidencial vitoriosa, a candidata Dilma lembrou muitas vezes que sua missão era continuar a grande obra do presidente Lula. Mas nunca deixou de dizer, com todas as letras, que“continuar não é repetir”
.

Continuar é avançar no processo construtivo. E quando queremos levar um processo adiante, a gente se vê na fascinante obrigação de dar passos novos e inovadores. Este será um dos nortes da nossa atuação no Ministério da Cultura: continuar – e avançar.

A política cultural, no governo do presidente Lula, abriu-se em muitas direções. O que recebemos aqui, hoje, é um legado positivo de avanços democráticos. É a herança de um governo que se compenetrou de sua missão de fomentador, incentivador, financiador e indutor do processo de desenvolvimento cultural do país.

Sua principal característica talvez tenha sido mesmo a de perceber que já era tempo de abrir os olhos, de alargar o horizonte, para incorporar segmentos sociais até então desconsiderados. E abrigar um conjunto maior e mais variado de fazeres artísticos e culturais. Em consequência disso, muitas coisas, que andavam apagadas, ganharam relevo: grupos artísticos, associações culturais, organizações sociais que se movem no campo da cultura. E se projetou, nas grandes e médias cidades brasileiras, o protagonismo colorido das periferias.

É claro que vamos dar continuidade a iniciativas como os Pontos de Cultura, programas e projetos do Mais Cultura, intervenções culturais e urbanísticas já aprovadas ou em andamento – como as ações urbanas previstas no PAC 2, com suas praças, jardins, equipamentos de lazer e bibliotecas. E as obras do PAC das Cidades Históricas, destinadas a iluminar memórias brasileiras. Enfim, minha gestão jamais será sinônimo de abandono do que foi ou está sendo feito. Não quero a casa arrumada pela metade. Coisas se desfazendo pelo caminho. Pinturas deixadas no cavalete por falta de tinta.

Quero adiantar, também, que o Ministério da Cultura vai estar organicamente conectado – em todas as suas instâncias e em todos os seus instantes – ao programa geral do governo da presidenta Dilma. Às grandes metas nacionais de erradicar a miséria, garantir e expandir a ascensão social, melhorar a qualidade de vida nas cidades brasileiras, promover a imagem, a presença e a atuação do Brasil no mundo. A chama da cultura e da criatividade cultural brasileira deverá estar acesa no coração mesmo de cada uma dessas grandes metas.

Erradicar a miséria, assim como ampliar a ascensão social, é melhorar a vida material de um grande número de brasileiros e brasileiras. Mas não pode se resumir a isso. Para a realização plena de cada uma dessas pessoas, tem de significar, também, acesso à informação, ao conhecimento, às artes. É preciso, por isso mesmo, ampliar a capacidade de consumo cultural dessa multidão de brasileiros que está ascendendo socialmente.

Até aqui, essas pessoas têm consumido mais eletrodomésticos – e menos cultura. É perfeitamente compreensível. Mas a balança não pode permanecer assim tão desequilibrada. Cabe a nós alargar o acesso da população aos bens simbólicos. Porque é necessário democratizar tanto a possibilidade de produzir quanto a de consumir
.

E aproveito a ocasião para pedir uma primeira grande ajuda ao Congresso, aos senadores e deputados agora eleitos ou reeleitos pela população brasileira: por favor, vamos aprovar, este ano, nesses próximos meses, o nosso Vale Cultura, para que a gente possa incrementar, o mais rapidamente possível, a inclusão da cultura na cesta do trabalhador e da trabalhadora. Cesta que não deve ser apenas “básica” – mas básica e essencial para a vida de todos. Em suma, o que nós queremos e precisamos fazer é o casamento da ascensão social e da ascensão cultural. Para acabar com a fome de cultura que ainda reina em nosso país.

A mesma e forte chama da cultura e da criatividade do nosso povo deve cintilar, ainda, no solo da reforma urbana e no horizonte da afirmação soberana do Brasil no mundo. Arquitetura é cultura. Urbanismo é cultura. Na visão tradicional, arquitetura e urbanismo só são “cultura” quando a gente olha para trás, na hora de tombamentos e restaurações. Isso é importante, mas não é tudo. Arquitetura e urbanismo são cultura, também, no momento presente de cada cidade e na criação de seus desenhos e possibilidades futuras. Hoje, diante da crise geral das cidades brasileiras, isso vale mais do que nunca.

O que não significa que vamos passar ao largo da vida rural, como se ela não existisse. O campo precisa de um “luz para todos” cultural.

De outra parte, o Ministério da Cultura tem de realmente começar a pensar o Brasil como um dos centros mais vistosos da nova cultura mundial.

Quero ainda assumir outro compromisso, que me alegra ver como uma homenagem ao nosso querido Darcy Ribeiro. Estaremos firmes, ao lado do Ministério da Educação, na missão inadiável de qualificar o ensino em nosso país. Se o Ministério da Educação quer mais cultura nas escolas, o Ministério da Cultura quer estar mais presente, mediando o encontro essencial entre a comunidade escolar e a cultura brasileira. Um encontro que há muito o Brasil espera – e onde todos só temos a ganhar.

Pelo que desde já se pode ver, o Ministério da Cultura, na gestão de Dilma Rousseff, não será uma senhora excêntrica, nem um estranho no ninho. Vai fazer parte do dia-a-dia das ações e discussões. Vai estreitar seus laços de parentesco no espaço interno do governo. Mas, para que tudo isso se realize, na sua plenitude, não podemos nos esquecer do que é mais importante.

Tudo bem que muita gente se contente em ficar apenas deslizando o olhar pela folhagem do bosque. Mas a folhagem e as florações não brotam do nada. Na base de todo o bosque, de todo o campo da cultura, está a criatividade. Está a figura humana e real da pessoa que cria. Se anunciamos tantos projetos e tantas ações para o conjunto da cultura, se aceitamos o princípio de que a cultura é um direito de todos, se realçamos o lugar da cultura na construção da cidadania e no combate à violência, não podemos deixar no desamparo, distante de nossas preocupações, justamente aquele que é responsável pela existência da arte e da cultura.

Visões gerais da questão cultural brasileira, discutindo estruturas e sistemas, muitas vezes obscurecem – e parecem até anular – a figura do criador e o processo criativo. Se há um pecado que não vou cometer, é este. Pelo contrário: o Ministério vai ceder a todas as tentações da criatividade cultural brasileira. A criação vai estar no centro de todas as nossas atenções. A imensa criatividade, a imensa diversidade cultural do povo mestiço do Brasil, país de todas as misturas e de todos os sincretismos. Criatividade e diversidade que, ao mesmo tempo, se entrelaçam e se resolvem num conjunto único de cultura. Este é o verdadeiro milagre brasileiro, que vai do Círio de Nazaré às colunatas do Palácio da Alvorada, passando por muitas cores e tambores.

Sim. A riqueza da cultura brasileira é um fato que se impõe mesmo ao mais distraído de todos os observadores. Já vai se tornando até uma espécie de lugar comum reconhecer que a nossa diversidade artística e cultural é tão grande, encantadora e fascinante quanto a nossa biodiversidade.E é a cultura que diz quem somos nós. É na criação artística e cultural que a alma brasileira se produz e se reconhece. Que a alma brasileira brilha para nós mesmos – e rebrilha para o mundo inteiro.

E aqui me permitam a nota pessoal. Mas é que não posso trair a mim mesma. Não posso negar o que vi e o que vivi. Arte e cultura fazem parte – ou melhor, são a minha vida desde que me entendo por gente. Vivência e convivência íntimas e já duradouras. Nasci e cresci respirando esse ar. Com todos os seus fluidos, os seus sopros vitais, as suas revelações, os seus aromas, as suas iluminuras e iluminações… E nesse momento eu não poderia deixar de agradecer ao meu pai e à minha mãe, que me abriram a mente para assimilar o sentido de todas as linguagens artísticas e culturais. É por isso mesmo que devo e vou colocar, no centro de tudo, a criação e a criatividade. O grande, vivo e colorido tear onde milhões de brasileiros tecem diariamente a nossa cultura.

A criatividade brasileira chega a ser espantosa, desconcertante, e se expressa em todos os cantos e campos do fazer artístico e cultural: no artesanato, na dança, no cinema, na música, na produção digital, na arquitetura, no design, na televisão, na literatura, na moda, no teatro, na festa.

Pujança – é a palavra. E é esta criatividade que gira a roda, que move moinhos, que revela a cara de tudo e de todos, que afirma o país, que gera emprego e renda, que alegra os deuses e os mortais. Isso tem de ser encarado com o maior carinho do mundo. Mas não somente com carinho. Tem de ser tratado com carinho e objetividade. E é justamente por isso que, ao assumir o Ministério da Cultura, assumo também a missão de celebrar e fomentar os processos criativos brasileiros. Porque, acima de tudo, é tempo de olhar para quem está criando
.

A partir deste momento em que assumo o Ministério da Cultura, cada artista, cada criadora ou criador brasileiro, pode ter a certeza de uma coisa: o meu coração está batendo por eles. E o meu coração vai saber se traduzir em programas, projetos e ações.

Sei que, neste momento, a arte e a cultura brasileiras já nos brindam com coisas demais à luz do dia, à luz da noite, em recintos fechados e ao ar livre. E vamos estimular e fortalecer todas elas. Objetivamente, na medida do possível. E subjetivamente, na desmedida do impossível. Mas sei, também, que coisas demais ainda estão por vir, das extensões amazônicas à amplidão dos pampas, passeando pelos assentamentos da agricultura familiar, por fábricas e usinas hidrelétricas, por escolas e canaviais, por vilas e favelas, praias e rios – entre o computador, o palco e a argila. Porque, no terreno da cultura, para lembrar vagamente, e ao inverso, um verso de Drummond, todo barro é esperança de escultura.

É preciso descentralizar, sim. Mas descentralizar sem deserdar. É preciso dar formação e ferramentas aos novos. Mas garantindo a sustentação objetiva dos seus fazeres. Porque, como disse, muita coisa ainda se move em zonas escuras ou submersas, sem ter meios de aflorar à superfície mais viva de nossas vidas. É preciso explorar essas jazidas. Explorar a imensa riqueza desse “pré-sal” do simbólico que ainda não rebrilhou à flor das águas imensas da cultura brasileira.

Por tudo isso é que devo dizer que a atuação do Ministério da Cultura vai estar sempre profundamente ligada às raízes do Brasil. Pois só assim vamos nos entender a nós mesmos. E saber encontrar os caminhos mais claros do nosso futuro.

Minhas amigas e meus amigos, antes de encerrar, quero me dirigir às trabalhadoras e aos trabalhadores deste Ministério. De uma forma breve, mais breve do que gostaria, mas a gente vai ter muito mais tempo para conversar. De momento, quero apenas dizer o seguinte: seremos todos, aqui, servidores realmente públicos. Vou precisar, passo a passo, da dedicação de todos vocês.Vamos trabalhar juntos, somar esforços, multiplicar energias, das menores tarefas cotidianas, no dia-a-dia deste Ministério, às metas maiores que desejamos realizar em nosso país.

Em resumo, é isso. O que interessa, agora, é saber fazer. Mas, também, saber escutar. Quero que a minha gestão, no Ministério da Cultura, caiba em poucas palavras: saber pensar, saber fazer, saber escutar. Mas tenho também o meu jeito pessoal de conduzir as coisas. E tudo – todas as nossas reflexões, todos os nossos projetos, todas as nossas intervenções –, tudo será feito buscando, sempre, o melhor caminho. Com suavidade – e firmeza. Com delicadeza – e ousadia.

Mas, volto a dizer, e vou insistir sempre: com a criação no centro de tudo. A criação será o centro do sistema solar de nossas políticas culturais e do nosso fazer cotidiano. Por uma razão muito simples:não existe arte sem artista.

Muito obrigada.
Ana de Hollanda





Democratizar x Roubar


Reproduzo aqui com autorização do (brilhante) autor de livros Maurício Veneza, esse texto esclarecedor no tocante a pirataria que corre solta sobre direitos autorais, um verdadeiro puxão de orelha na turma "sem noção" que simplesmente defende o fim do repasse de DAs aos criadores.
A condenação do Pirate Bay tem gerado polêmica, com uma expressiva maioria contrária à decisão judicial. Parecem achar que os rapazes são uma espécie de Robin Hood, roubando dos ricos para dar aos pobres. E os que são a favor, como Paul McCartney, são xingados de todos os nomes feios existentes ou a inventar. Pessoalmente, eu gostaria que, antes que as pessoas disparassem emocionalmente sua enxurrada de impropérios, dessem uma paradinha para reflexão.
A idéia do chamado direito democrático de acesso à cultura é extremamente simpática (eu também sou a favor!), mas tem servido a toda sorte de pilantragens. A alegação é de que, com a chamada pirataria, se estaria redistribuindo os bens culturais de modo mais amplo e justo, prejudicando apenas os barões da indústria da cultura, às vezes chamados genericamente de "altos executivos". Balela! Quem sai prejudicado são os criadores, músicos, escritores, artistas gráficos e outros, que também têm suas brigas com as empresas. Executivo não é criador. Sai de uma gravadora e vai para uma empresa de telefonia. Cujos executivos, aliás, vão muito bem, também graças aos acessos à internet, que não são de graça... Aliás, sempre é bom lembrar, não existe nada de graça. Se você não paga, alguém está pagando. É como na história das cópias Xerox de livros, em que se pretende considerar que a cópia para uso pessoal e sem finalidade comercial não constitui crime de violação de direitos autorais. É no “sem finalidade comercial” (ou “sem intuito de lucro” ou “sem ganho financeiro”) que a coisa pega: a loja copiadora faz as cópias de graça? E a fábrica das máquinas copiadoras, o fabricante do toner, do papel...? Cá entre nós, até quem usa a cópia tem intenção de ganho financeiro. Não imediato, é verdade. Copia para estudar, estuda, se forma, arranja emprego... Vai trabalhar de graça? Não vai.
Lembrando ainda: nenhuma das pessoas que proclamam a distribuição gratuita dos bens culturais (produzidos por outros) disponibiliza gratuitamente sua principal atividade. Exemplificando: um professor universitário que escreve um livro, mas vive das suas aulas, pode se dar ao luxo de ceder o seu livro na internet. Mas jamais cederá a totalidade das suas aulas, sem que tenha recebido algo por elas, porque assim não terá como sobreviver. No entanto, o acesso democrático à educação também é um direito do cidadão. Ou não é? Ditar regras para os outros é fácil, no dos outros sempre é refresco. Mais um exemplo: se eu, que não vivo de música, compuser uma música, poderei por vaidade ou qualquer outro motivo, liberar minha criação na internet. Afinal, não dependo dela pra viver. Mas se eu passar a exigir que um músico profissional faça a mesma coisa, não será só estupidez minha, será canalhice mesmo.
É claro que todo cidadão tem o democrático direito ao acesso aos bens culturais. Tem também o direito à saúde. Será que, por isto, alguém vai apregoar que médico tem que trabalhar sem receber? Mas quando se trata dos criadores de bens culturais...
Os argumentos são bem conhecidos, até as frases são repetidas: “banda ganha dinheiro é com show, não com gravação”. Bacana. E se o compositor da banda não se apresenta no palco? Fica a zero? E os artistas que não fazem espetáculo, escritores, designers, fotógrafos, vão viver de que, de patrocínio?
“A disponibilização pela internet ajuda a divulgação”. Divulga para outros que também vão baixar sem pagar. Isto interessa a quem? A quem tem a vaidade de querer ser “famoso”? Amiga nossa tem um livro de muito sucesso. Mas não vende. Todo mundo faz download sem pagar. Elogiam, dizem maravilhas. E ela paga suas contas com o quê, elogios dos fãs?
Existem, não se pode negar, astros do livro ou da música que são a favor da disponibilização da obra alheia. Não sei se fazem o mesmo com sua própria obra. Aliás, pensando bem... Se eles acham que o sistema de direitos autorais é antidemocrático e ilegítimo, não será ilegítimo também tudo que eles ganharam com este sistema? E o que se faz com ganhos ilegítimos? A gente devolve, não é? Fica então a sugestão aos astros defensores da disponibilização da obra dos outros: doem o que já ganharam e recomecem do zero, com as nova regras. Aí, sim, vou acreditar na sua sinceridade.
E vamos aproveitar para perguntar a quem acha que existe alguma coisa de graça: dar dinheiro pra escritor, compositor, fotógrafo não pode, mas pra provedor, site, fabricante de mídia, de equipamento, etc, pode? Do jeito que está, daqui a pouco vão querer alegar que assalto é forma legítima de redistribuição de renda...


MAURÍCIO VENEZA 
ILUSTRADOR E ESCRITOR

Nasci num dia de primavera, cento e um anos depois de Robert Louis Stevenson. Deu-se o importantíssimo evento (para mim) na mui formosa cidade de Niterói, que já foi capital do Rio de Janeiro e hoje é mais conhecida por ter um museu parecido com um disco-voador. Desenho desde criança, o que não é vantagem, já que todo mundo desenha quando é criança. Minhas imagens apareceram em histórias em quadrinhos, jornais, revistas, anúncios, cartazes, quadros-negros de escola, guardanapos de bar e mais de setenta livros infantis e juvenis. Escrevi roteiros para quadrinhos, recados para porta de geladeira, contos que não mostro para ninguém e cerca de trinta livros. Atualmente ocupo a vice-presidência da AEI-LIJ.

 O Sapo e o Pássaro, texto de Ieda de Oliveira - Editora Larousse - 2008
Chico Pena Azul, texto e ilustrações de Maurício Veneza - Formato Editorial - em produção

Sergio Amadeu: “Ana de Holanda e ECAD atacam política de Lula”

aprofundando o debate


Publicado em 25 de janeiro de 2011 na Carta Maior.
O movimento de software livre, de recursos educacionais abertos e os defensores da liberdade e diversidade cultural votaram em Dilma pelos compromissos que ela afirmou em defesa do bem comum. No mesmo dia que a Ministra Ana de Holanda atacou o Creative Commons retirando a licença do site, a Ministra do Planejamento Miriam Belquior publicou a normativa que consolida o software livre como a essência do software público que deve ser usada pelo governo. É indiscutível o descompasso que a Ministra da Cultura tem em relação à política de compartilhamento do governo Dilma. O artigo é de Sergio Amadeu da Silveira.
Sergio Amadeu da Silveira (*)
Os defensores da indústria de intermediação e advogados do ECAD lançam um ataque a política de compartilhamento de conhecimento e bens culturais lançada pelo presidente Lula. Na sua jornada contra a criatividade e em defesa dos velhos esquemas de controle da cultura, chegam aos absurdos da desinformação ou da mentira.
Primeiro é preciso esclarecer que as licenças Creative Commons surgiram a partir do exemplo bem sucedido do movimento do software livre e das licenças GPL (General Public Licence). O software livre também inspirou uma das maiores obras intelectuais do século XXI, a enciclopédia livre chamada Wikipedia. Lamentavelmente, os lobistas do ECAD chegam a dizer que a Microsoft apóia o software livre e o movimento de compartilhamento do conhecimento.
Segundo, o argumento do ECAD de que defender o Cretaive Commons é defender grandes corporações internacionais é completamente falso. As grandes corporações de intermediação da cultura se organizam e apóiam a INTERNATIONAL INTELLECTUAL PROPERTY ALLIANCE® (IIPA, Associação internacional de Propriedade Internacional) e que é um grande combatente do software livre e do Creative Commons. O Relatório da IIPA de fevereiro de 2010 ataca o Brasil, a Malásia e outros países que usam licenças mais flexíveis e propõem que o governo norte-americano promova retaliações a estes países.
Terceiro, a turma do ECAD desconsidera a política histórica da diplomacia brasileira de luta pela flexibilização dos acordos de propriedade intelectual que visam simplesmente bloquear o caminho do desenvolvimento de países como o Brasil. Os argumentos contra as licenças Creative Commons são tão rídiculos como afirmar que a Internet e a Wikipedia é uma conspiração contra as enciclopédias proprietárias, como a Encarta da Microsoft ou a Enciclopédia Britânica.
Quarto, o texto do maestro Marco Venicio Andrade é falso até quando parabeniza a presidente Dilma por ter “restabelecido a soberania de nossa gestão cultural, anulando as medidas subservientes tomadas pelos que, embora parecendo modernos e libertários, só queriam mesmo é dobrar a espinha aos interesses das grandes corporações que buscam monopolizar a cultura”. O blog do Planalto lançado pelo presidente Lula e mantido pela presidente Dilma continua com as licenças Creative Commons. Desse modo, os ataques que o defensor do ECAD fez a política dos commons lançada por Gilberto Gil, no MINC, também valem para a Presidência da República.
Quinto, o movimento de software livre, de recursos educacionais abertos e os defensores da liberdade e diversidade cultural votaram em Dilma pelos compromissos que ela afirmou em defesa do bem comum. No mesmo dia que a Ministra Ana de Holanda atacou o Creative Commons retirando a licença do site, a Ministra do Planejamento Miriam Belquior publicou a normativa que consolida o software livre como a essência do software público que deve ser usada pelo governo. É indiscutível o descompasso que a Ministra da Cultura tem em relação à política de compartilhamento do governo Dilma.


(*) Sergio Amadeu da Silveira é professor da UFABC. Sociólogo e doutor em Ciência Política. Foi presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação e primeiro coordenador do Comitê Técnico de Implementação do Software Livre na gestão do presidente Lula.

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