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domingo, novembro 08, 2015

O Mito da Caverna de Platão em quadrinhos Quadrinhos

O Mito da Caverna, ou Alegoria da Caverna, é um texto do filósofo grego Platão, parte do Livro VII de A República. Através de um diálogo entre as personagens Sócrates e Glauco, Platão faz uma parábola para demonstrar como a escuridão e as trevas da ignorância podem ser superadas pela busca do conhecimento, da verdade.
As sombras projetadas pela pouca luz que entra na caverna representam o senso comum, a crença acrítica no relato anedótico, nas tradições e nos dogmas. É literalmente a visão parcial e limitada, mas vista pelos homens da caverna como sendo todo o mundo.
Por outro lado, a saída da caverna e a busca da luz é a busca pelo conhecimento, pela verdade. No início pode assustar e até fascinar, mas é a única forma de viver plenamente.
Esta versão, do estúdio de Maurício de Souza, é de 2002 e nos traz uma bem humorada visão dessa parábola. 
No final, o trecho de A República que contém a alegoria.




















Diálogo de Sócrates com Glauco

Sócrates: Agora imagine a nossa natureza, segundo o grau de educação que ela recebeu ou não, de acordo com o quadro que vou fazer. Imagine, pois, homens que vivem em uma morada subterrânea em forma de caverna. A entrada se abre para a luz em toda a largura da fachada. Os homens estão no interior desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço, de modo que não podem mudar de lugar nem voltar a cabeça para ver algo que não esteja diante deles. A luz lhes vem de um fogo que queima por trás deles, ao longe, no alto. Entre os prisioneiros e o fogo, há um caminho que sobe. Imagine que esse caminho é cortado por um pequeno muro, semelhante ao tapume que os exibidores de marionetes dispõem entre eles e o público, acima do qual manobram as marionetes e apresentam o espetáculo.
Glauco: Entendo
Sócrates: Então, ao longo desse pequeno muro, imagine homens que carregam todo o tipo de objetos fabricados, ultrapassando a altura do muro; estátuas de homens, figuras de animais, de pedra, madeira ou qualquer outro material. Provavelmente, entre os carregadores que desfilam ao longo do muro, alguns falam, outros se calam.
Glauco: Estranha descrição e estranhos prisioneiros!
Sócrates: Eles são semelhantes a nós. Primeiro, você pensa que, na situação deles, eles tenham visto algo mais do que as sombras de si mesmos e dos vizinhos que o fogo projeta na parede da caverna à sua frente?
Glauco: Como isso seria possível, se durante toda a vida eles estão condenados a ficar com a cabeça imóvel?
Sócrates: Não acontece o mesmo com os objetos que desfilam?
Glauco: É claro.
Sócrates: Então, se eles pudessem conversar, não acha que, nomeando as sombras que vêem, pensariam nomear seres reais?
Glauco: Evidentemente.
Sócrates: E se, além disso, houvesse um eco vindo da parede diante deles, quando um dos que passam ao longo do pequeno muro falasse, não acha que eles tomariam essa voz pela da sombra que desfila à sua frente?
Glauco: Sim, por Zeus.
Sócrates: Assim sendo, os homens que estão nessas condições não poderiam considerar nada como verdadeiro, a não ser as sombras dos objetos fabricados.
Glauco: Não poderia ser de outra forma.
Sócrates: Veja agora o que aconteceria se eles fossem libertados de suas correntes e curados de sua desrazão. Tudo não aconteceria naturalmente como vou dizer? Se um desses homens fosse solto, forçado subitamente a levantar-se, a virar a cabeça, a andar, a olhar para o lado da luz, todos esses movimentos o fariam sofrer; ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as sombras anteriormente. Na sua opinião, o que ele poderia responder se lhe dissessem que, antes, ele só via coisas sem consistência, que agora ele está mais perto da realidade, voltado para objetos mais reais, e que está vendo melhor? O que ele responderia se lhe designassem cada um dos objetos que desfilam, obrigando-o com perguntas, a dizer o que são? Não acha que ele ficaria embaraçado e que as sombras que ele via antes lhe pareceriam mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?
Glauco: Certamente, elas lhe pareceriam mais verdadeiras.
Sócrates: E se o forçassem a olhar para a própria luz, não achas que os olhos lhe doeriam, que ele viraria as costas e voltaria para as coisas que pode olhar e que as consideraria verdadeiramente mais nítidas do que as coisas que lhe mostram?
Glauco: Sem dúvida alguma.
Sócrates: E se o tirarem de lá à força, se o fizessem subir o íngreme caminho montanhoso, se não o largassem até arrastá-lo para a luz do sol, ele não sofreria e se irritaria ao ser assim empurrado para fora? E, chegando à luz, com os olhos ofuscados pelo brilho, não seria capaz de ver nenhum desses objetos, que nós afirmamos agora serem verdadeiros.
Glauco: Ele não poderá vê-los, pelo menos nos primeiros momentos.
Sócrates: É preciso que ele se habitue, para que possa ver as coisas do alto. Primeiro, ele distinguirá mais facilmente as sombras, depois, as imagens dos homens e dos outros objetos refletidas na água, depois os próprios objetos. Em segundo lugar, durante a noite, ele poderá contemplar as constelações e o próprio céu, e voltar o olhar para a luz dos astros e da lua mais facilmente que durante o dia para o sol e para a luz do sol.
Glauco: Sem dúvida.
Sócrates: Finalmente, ele poderá contemplar o sol, não o seu reflexo nas águas ou em outra superfície lisa, mas o próprio sol, no lugar do sol, o sol tal como é.
Glauco: Certamente.
Sócrates: Depois disso, poderá raciocinar a respeito do sol, concluir que é ele que produz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível, e que é, de algum modo a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.
Glauco: É indubitável que ele chegará a essa conclusão.
Sócrates: Nesse momento, se ele se lembrar de sua primeira morada, da ciência que ali se possuía e de seus antigos companheiros, não acha que ficaria feliz com a mudança e teria pena deles?
Glauco: Claro que sim.
Sócrates: Quanto às honras e louvores que eles se atribuíam mutuamente outrora, quanto às recompensas concedidas àquele que fosse dotado de uma visão mais aguda para discernir a passagem das sombras na parede e de uma memória mais fiel para se lembrar com exatidão daquelas que precedem certas outras ou que lhes sucedem, as que vêm juntas, e que, por isso mesmo, era o mais hábil para conjeturar a que viria depois, acha que nosso homem teria inveja dele, que as honras e a confiança assim adquiridas entre os companheiros lhe dariam inveja? Ele não pensaria antes, como o herói de Homero, que mais vale “viver como escravo de um lavrador” e suportar qualquer provação do que voltar à visão ilusória da caverna e viver como se vive lá?
Glauco: Concordo com você. Ele aceitaria qualquer provação para não viver como se vive lá.
Sócrates: Reflita ainda nisto: suponha que esse homem volte à caverna e retome o seu antigo lugar. Desta vez, não seria pelas trevas que ele teria os olhos ofuscados, ao vir diretamente do sol?
Glauco: Naturalmente.
Sócrates: E se ele tivesse que emitir de novo um juízo sobre as sombras e entrar em competição com os prisioneiros que continuaram acorrentados, enquanto sua vista ainda está confusa, seus olhos ainda não se recompuseram, enquanto lhe deram um tempo curto demais para acostumar-se com a escuridão, ele não ficaria ridículo? Os prisioneiros não diriam que, depois de ter ido até o alto, voltou com a vista perdida, que não vale mesmo a pena subir até lá? E se alguém tentasse retirar os seus laços, fazê-los subir, você acredita que, se pudessem agarrá-lo e executá-lo, não o matariam?
Glauco: Sem dúvida alguma, eles o matariam.
Sócrates: E agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar exatamente essa alegoria ao que dissemos anteriormente. Devemos assimilar o mundo que apreendemos pela vista à estada na prisão, a luz do fogo que ilumina a caverna à ação do sol. Quanto à subida e à contemplação do que há no alto, considera que se trata da ascensão da alma até o lugar inteligível, e não te enganarás sobre minha esperança, já que desejas conhecê-la. Deus sabe se há alguma possibilidade de que ela seja fundada sobre a verdade. Em todo o caso eis o que me aparece tal como me aparece; nos últimos limites do mundo inteligível aparece-me a ideia do Bem, que se percebe com dificuldade, mas que não se pode ver sem concluir que ela é a causa de tudo o que há de reto e de belo. No mundo visível, ela gera a luz e o senhor da luz, no mundo inteligível ela própria é a soberana que dispensa a verdade e a inteligência. Acrescento que é preciso vê-la se quer comportar-se com sabedoria, seja na vida privada, seja na vida pública.
Glauco: Tanto quanto sou capaz de compreender-te, concordo contigo.
Texto: A Alegoria da caverna: A Republica, 514a-517c. Tradução de Lucy Magalhães.
Quadrinhos: Maurício de Souza Produções, 2002
* Agradecimento ao Texugo pela força.

Vida fantástica do baixo centro

O artista gráfico Jão lança o livro “Baixo Centro”, um retrato da região responsável pela explosão cultural de BH


Conceitos. O artista gráfico Jão demorou cerca de dois meses para concluir todas as ilustrações que preenchem o livro “Baixo Centro”, enquanto elaborava o roteiro da história em parceria com o poeta mineiro Rafael. O livro tem uma tiragem inicial de 1.500 exemplares e foi impresso em um formato pouco convencional, em proporção similar ao papel A3, diferente das histórias em quadrinhos menores e mais tradicionais, justamente para ressaltar o detalhismo das ilustrações de Jão.
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Foi ali, na calçada da rua Aarão Reis, onde a população em situação de rua busca abrigo e o sertanejo de raiz rola solto nos botecos apertados, que o Carnaval de Belo Horizonte puxou seus primeiros blocos para uma cidade quase morta em fevereiros de folia. O mesmo cartão-postal fez o Duelo de MCs explodir como movimento nacional e também instaurou uma praia cheia de vida na cinzenta praça da Estação. Todos os sinais das ebulições artísticas em prol da ocupação de espaços públicos em Belo Horizonte foram o cenário para que o artista gráfico Jão, 28, elaborasse a sua primeira novela em quadrinhos. Intitulado “Baixo Centro” (R$ 24,90), o livro a ser lançado pela editora Miguilim, hoje à tarde, embaixo do viaduto Santa Tereza, faz um retrato político inédito de uma região fundamental para a construção artística que a cidade ainda vive.
Imerso no universo dos quadrinhos há oito anos, Jão é idealizador da Feira Faísca – Mercado Gráfico, a primeira periódica de Belo Horizonte, e tem participações no Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), sendo publicado em antologias como “MSP Novos 50” (Panini, 2011) e “Imaginários em Quadrinhos” (Draco, 2013). Além disso, ele ainda faturou o 23º Troféu HQ Mix, em 2012, com a história “Little Heroes”, distribuída pela Editora Diamond, nos Estados Unidos.
Apesar de uma trajetória respeitável, em meados de 2012, enquanto morava na rua Carijós, no centro da capital mineira, Jão começou a desenvolver algo que nunca havia feito: sua primeira novela em quadrinhos. “Eu reparava nos ambientes. A escadaria atrás do metrô etc. E aquilo tudo me parecia meio misterioso, com um cenário dessas histórias de aventuras mesmo”, explica o quadrinista.
Longe de apontar um enredo cronológico sobre movimentos ou momentos emblemáticos para a cidade, “Baixo Centro” propõe um debate moral mais profundo sobre as consequências dessa ocupação.
A história é protagonizada por dois personagens que não têm nome e passam a maior parte do tempo correndo por locais emblemáticos da cidade, como a escadaria colorida atrás da Estação Central de Metrô, as fontes da praça Rui Barbosa, a vista cenográfica da rua Sapucaí e a emblemática esquina da rua Aarão Reis com a rua Caetés. Durante a correria, uma multidão se junta para perseguir os dois personagens com ódio e violência. “No fim de 2014, no contexto político do país, estavam rolando esses discursos de ódio, linchamento público, galera querendo fazer justiça com as próprias mãos. E isso tem muito a ver com a ocupação dos espaços públicos, com a resistência de pessoas que não se sentem confortáveis com isso”, elucida Jão.
Um dos pontos mais interessantes da história é que não há qualquer diálogo entre as cenas, todas ilustradas em preto e branco e com diversas tonalidades de cinza, em uma influência que vai desde os filmes de Quentin Tarantino até os quadrinhos do italiano Hugo Pratt e do espanhol Miguelanxo Prado, segundo o próprio autor. “São influências de histórias de aventura, principalmente. E a ausência de diálogos foi natural, desde o início pensávamos nisso. Uma história falada em imagens, que pudesse mostrar esse dilema moral da ocupação de espaços. Fico feliz porque, como uma história em quadrinhos, é o primeiro registro de um movimento tão importante para a cidade”, disserta Jão.

domingo, novembro 01, 2015

Estudo inédito faz levantamento das tirinhas publicadas no Brasil

O serviço de leitura  em streaming me parece um produto que poderia ser oferecido pelo setor de biblioteca..

fica a dica de um serviço e produto informacional.  Heberle



Pesquisa "Raio-X das Tiras no Brasil" mostra que as regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul têm pelo menos um jornal com quadrinhos.



Cosmic Reader
Semelhante ao Netflix, Cosmic Reader é pioneiro em oferecer serviço de assinatura de HQs digitais

É um clássico leitor aquele que, diante de um jornal em papel, vai direto ao caderno de cultura em busca de sua primeira leitura: as tirinhas. O jornalista Paulo Ramos, porém, recentemente levou a prática a um extremo - durante um ano, ele leu essas histórias em 94 diários brasileiros, em todas as capitais e no Estado de São Paulo.
 
O resultado é a pesquisa "Raio-X das Tiras no Brasil" (clique aqui para ler), em que o também professor do departamento de letras na Unifesp mapeia as tirinhas publicadas no Brasil. As conclusões foram publicadas em setembro na revista do Observatório de Histórias em Quadrinhos da USP. "Chamava a atenção o fato de as tiras terem encontrado nas mídias virtuais um novo local de circulação. Faltavam, no entanto, dados que permitissem uma leitura comparativa com os jornais."
 
Os jornais impressos foram, durante o século 20, o meio predileto de circulação de tirinhas. Já não são mais. Seu futuro, para o pesquisador, está na internet, enquanto diários suspendem seus espaços dedicados para os quadrinhos. O "Jornal do Brasil", por exemplo, encerrou a publicação de suas tirinhas em 2008, diz Ramos.
 
A adoção de um novo suporte é um curioso passo para as tirinhas, que se desenvolveram no espaço limitado da página do jornal - como as tirinhas publicadas pelo caderno "Ilustrada", do jornal "Folha de S.Paulo", em geral com apenas três quadrinhos. "Tem havido um alargamento no tamanho das tiras produzidas na internet. É como uma camisa de força que, de uma hora para outra, é aberta", afirma. "Mesmo assim, os autores têm mantido a tendência de as tiras serem construídas em narrativas curtas", diz o autor.
 
FOTO: FABIO MOON E GABRIEL BÁ / REPRODUÇÃO
Fabio Moon e Gabriel Bá
Tirinha de Fabio Moon e Gabriel Bá, publicada no jornal "Folha de S.Paulo"

'Mentirinhas'

As conclusões desse estudo podem ser observadas em casos particulares, como a história de Fábio Coala, o criador do "Mentirinhas". Em 2009, Coala publicava tirinhas em um jornal local de São Vicente. "Poucos jornais tinham espaço para tiras e eu sabia que seria muito difícil viver disso", diz à reportagem. Em 2010, esse artista passou a publicar seu trabalho em seu próprio site.
 
site das tiras de "Mentirinhas" chegam a ter 20 mil acessos ao dia. Coala divulga o seu trabalho também por meio das mídias sociais. A maior diferença de publicar seu trabalho on-line, afirma Coala, é a liberdade criativa. "Você pode experimentar mais e ter uma resposta imediata dos leitores." 
 
Mas há ainda diversos exemplos da convivência entre o digital e o impresso, no universo dos quadrinhos. Veteranos do papel - como Laerte e Adão - também exploram sites, contas no Twitter e páginas no Facebook. André Dahmer, que publica as tirinhas "Malvados" na "Ilustrada", começou na internet em 2001 e só depois foi ao impresso, no "Jornal do Brasil". "Acho que é um movimento de ida e volta", ele afirma à reportagem. Seu perfil no Facebook tem quase 200 mil seguidores. "É um espaço para propagar meu trabalho", diz.
 
 

Netflix dos quadrinhos

Não só as tirinhas, mas os quadrinhos em geral têm desenvolvido estratégias para sobreviver entre o papel e a internet. Um exemplo recente é o projeto Cosmic, criado pelos cearenses Ramon Cavalcante e George Pedrosa. O Cosmic funciona como um tipo de Netflix das HQs, permitindo a leitura de gibis em "streaming" por uma mensalidade de R$ 15,90. Eles também produziram um suporte gratuito para a leitura de quadrinhos em tablets, celulares e computadores.
 
"Trabalho com HQs há 12 anos e, nesse percurso, vim e voltei para tentativas no digital", diz Cavalcante. "Em cada projeto nos deparamos com problemas tanto no impresso quanto no digital. Custo de impressão, de distribuição, postos de venda..."
 
Parte da motivação da dupla vem do cálculo do "custo-benefício" da leitura de gibis. O preço é alto, e a leitura dura pouco, afirmam, em busca de novos modelos de mercado. Mas os criadores do Cosmic também querem transformar a própria experiência de consumir uma HQ. O serviço de leitura em "streaming" vai começar com 50 autores. Numa etapa posterior, os criadores estimam lançar cinco ou seis novos títulos a cada semana.